segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Preciso dizer-te, mascarado

                  Tudo pára, tudo cinza. A notícia que chega aos meus olhos não permanece ali; percorre minha espinha, meus braços, minhas pernas... Essas notícias me espancam tão suavemente que me ponho cansada sem perceber, quase sem dor... É como se me chamasse, dama sonolenta e dolorida, para dançar. Eu aceito; sou uma dama e não se nega uma dança. Essa dança da anestesia torna minhas mãos impotentes, meus olhos fugitivos, meus pés desvalidos. Sou só meu estômago agonizando o que surge na mente.
                    Minha boca, reunindo os últimos dos esforços, tenta avisar-te algo. É uma advertência que tento fazer de tempos em tempos, de maneira sutil, mas ela nunca torna-se clara. Diabos. Acontece que a coragem foi anestesiada junto com o coração, nessa dança anestésica dos outros sentidos. Hei de tentar: a verdade é que não sou uma dama, eu insisto. Eu odeio ter que ser uma dama. Eu odeio não poder ser uma dama. Talvez eu só não quisesse ser nada, me entende? Não enxergo seu rosto... Será que me entende? A responsabilidade é a sensação dolorosa da picada da vacina das obrigações... E eu odeio perder o controle do meu corpo através dessas malditas drogas. Eu odeio perder a razão, a minha razão, única capaz de me manter sã nesse maldito mundo no qual me colocaram sem que eu fosse humanamente consciente para recusar. Acho que estou tendo vertigens... São as drogas da obrigação que aplicaram em mim, com certeza. Já não sei como dizer-te porque já não sei o que é tudo isso... Não te enxergo...
                    Não consigo ver teu rosto porque há um neblina que torna nossos egos, da forma bruta, foscos, e difíceis de serem vistos. Eu tenho tanto amor por essa neblina porque ela se mostra tão bonita, misteriosa e funcional quando todos nós dançamos, e esconde meu rosto quando não visto a máscara da razão da expectativa, e tudo torna-se um ensaio. Um ensaio no qual, embora eu não seja completamente eu, abrimos canais humanos e simplórios da identificação. É o que eu digo, eu quero tirar a máscara, é o que eu mais quero! Mas o ego é um rosto disforme que, se nem ao menos viu um espelho, não merece ser visto pelos demais rostos mascarados. Nesse aventuroso baile, entre danças imprevisíveis, o vento sopra a nosso favor e abrem-se brechas nas neblinas onde trocamos olhares sinceros e egocêntricos, mesmo através de máscaras. Eis nosso canal humano, vívido, conveniente, cotidiano: lindo.
                     As vezes acabamos tomando as máscaras pelos egos, e, ora!, as máscaras são belas! Não são simples assim... É verdade que tu, se quiseres dançar mais de um vez com alguma dama ou um cavalheiro, ou quiseres dançar continuamente, vais conviver na maioria das vezes com a máscara. Mas, se a dança tomar uma sincronia e uma beleza surpreendentes, ou melhor, se os dançarinos estiverem maravilhados com a experiência que é a sua dança, então, rapaz, ouça o que te digo (os olhos de tão viciados entre si, entre lábios entreabertos de uma deliciosa experiência surpreendente, e a valsa em seu ritmo mais lento possível), as mãos se desatarão para começarem uma nova dança, e, em um ritmo milimetricamente sincronizado, com os olhos vidrados de paixão, tirarão rapidamente as máscaras do seu parceiro, verão seu rosto desfigurado e hão de compreendê-lo do jeito que são esses rostos - linda e tragicamente terríveis e vergonhosos! É um momento em que os egos, por detrás das máscaras, transformam-se e desfazem-se de seus sentimentos egocêntricos, buscando sintetizar naqueles sorrisos correspondentes, causados pelo compasso da dança, uma semelhança entre seus rostos, uma semelhança na formação deles, uma semelhança nos sentimentos de pudor e insegurança que os fizeram colocar as máscaras. Eles tentam se comunicar! Eles tentam conversar, não através de palavras, mas de gestos, sobre os questionamentos que fazem ao vestirem o rosto, questionamentos sobre quem são eles verdadeiramente e sobre aquilo que são as malditas máscaras. Conversam entre calculados gestos, num diálogo só de afirmações e revelações, sobre como queriam que alguém admirasse seus rostos e os compreendesse, não os julgasse.
                         As vezes as máscaras caem sem querer, e seu parceiro há de compreendê-la. Se não compreender e abandoná-lo na dança, significa que nem sabe que veste, ele mesmo, ele próprio!, uma máscara, e que um dia ela cairá. As máscaras caem, nós as tiramos. Mas é tolice negá-las, elas fazem parte de nós e são essenciais para continuarmos dançando e mantermos o baile.
                        Mas ainda não consegui que compreendesse minha advertência... Meu Deus, como é difícil! O que eu quero dizer-te é que as vezes, por dentre a neblina, tomamos a máscara pelo rosto nu, o que é um tremendo engano. As vezes julgamos que conhecemos e que adoramos todos os traços daquele rosto desmascarado. A mostra do rosto só é saudável quando há reciprocidade. Quando um julga amá-lo e o outro insiste que os dois estão mascarados, é provável que um tenha se embriagado, sozinho, com o vinho da ilusão e esteja percebendo a dinâmica à sua volta de maneira equivocada... É provável que um deles ainda não tenha entrado no compasso da dança e não se sinta completamente à vontade perante o canal que se abre dentre os olhares das frestas de neblina. É provável que não se sinta à vontade porque sabe a ressaca que o outro sofrerá no dia seguinte com demasiado vinho ilusionês de hoje, e sabe qual máscara vai representar esse porre. A própria.
                      Se os convidados do baile concedem a honra da dança, significa que querem se divertir, viver e ver uma fresta através da neblina, abrir o canal. Nem sempre é tão fácil, mas muitas vezes a dança se vale pela desafio de entrar no compasso. Eu como dançarina me esforço, e gosto desses olhares das brechas. Mas me sinto tremendamente intimidada quando julgam minha máscara pelo meu rosto.
                       Meu rosto não é de dama. Rosto nenhum é de dama. Rostos representam menos o gênero do que a máscara... Ou pelo menos representam o gênero de forma diferente como eles nos são apresentados nessa sociedade doida. Se não costumo mais ornamentar minha máscara fazendo-a parecer comum, direita, encaminhada, é que não vejo necessidade ao olhar-me com ela no espelho, mas não significa que seus defeitos são os da minha face. Esses defeitos que vês na máscara são superficiais, alternativos, dir-se-ia até que são opcionais; questão de gosto. Alguns até gostam. Mas não são meus reais defeitos; não estão presentes nela meus reais anjos e meus reais demônios.
                     Se vamos nos dispor a tentarmos alcançar o rosto, deixemos o vinho da futura decepção de lado e tiremos esse brilho no olhar. Tenhamos calma, e desapeguemo-nos dessas máscaras egocêntricas que são consequência da vergonha do nosso rosto desfigurado. Admitamos: não somos cavalheiros e nem damas; somos homens. Mas é um processo vagaroso e demorado, e confesso que não tenho força o suficiente para assumí-lo. Não por essas injeções e pancadas (não só por esses fatores anestésicos); eles, se fossem comparados à minha vontade de seguir esse caminhos, seriam nada. Ou talvez sejam eles que dificultem sim, mas a força ainda não veio em mim, à tona, capaz de ignorar essas apunhaladas pelas costas que eu mesma me dou.
                  Dispenso aqui qualquer juízo de afeição; apesar de estar bem, minha cabeça dói, e tudo nela é processado com uma frieza objetiva, que só pretende esclarecer as coisas, sem cunho emocional. Estou sã. Qualquer vertigem e efeito passou. Só quero que saiba que não sou uma dama, e não me reconheço unicamente pela máscara. Sei que possuo um rosto, e estou tentando descobrí-lo. Primeiro, sozinha.
                   

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